London - 03/06/1932
Doutor Walter;
A noite caiu tem pouco tempo... e eu fico preocupado com os meus tormentos noturnos.
Soube por cima de panos que o Senhor anda frequentando o Doutor Freud no Juliet's Room na Wall Street em algumas manhas de domingo.
Bem, irei direto ao assunto: tem quase 3 meses que estou sonhando com a mesma pessoa. Estou anotando na minha agenda pessoal os dias em que ela não vem me visitar durante as noites; de 120 dias Doutor, ela deixou de vir somente em 6 dias.
Mas acontece que, de tanto amor que eu sinto por aquela moça, eu decidi arrancá-la de mim.
Eu teimo durante as manhãs e as tardes, e então, ela raramente vem. Mas de noite, Doutor, de noite ela me dá um tapa na cara e me diz: "Deixa de ser otário, você não vê que eu sou sua? Que nossas vozes foram feitas para serem ouvidas juntas? Que o meu corpo ferve somente quando você me toca? Que nós viramos grandes árvores livres e soltas quando contamos os nossos segretos pra gente? Que as nossas noites de sexo sempre foram profundamente misteriosas? Quanto mais você tentar me esquecer, mais eu vou tentar te aquecer. Involuntariamente. Porque é assim que a nossa historia funciona."
Doutor, talvez ela possa ter razão, mas do que não podemos fugir? Da morte tenha certaza que é impossivel, mas do resto não. Tudo é fuga, tudo é nudez e cru e um pouco de coragem... e um pouco de amor próprio.
Desculpa pelo modo inconveniente que eu usei para que essa carta chegasse até o Senhor. Falta de conveniência não faz parte de mim; mas pela urgência psicologica, tive que usá-la.
Tanti saluti;
Sam. Continua
London - 18/06/1932
Sam;
Desculpe pelo atraso; tive que resolver algumas relações politicas internacionais.
Espero que não tenhas entrado em estado de loucura nesses ultimos dias, aliàs, eu e o Freud estavamos mesmo discutindo sobre isso nesse ultimo domingo: ficar louco por amor, literalmente. Ele continua insistindo e afirmando que isso é realmente possivel; sabe como é, são palavras de S. Freud e não da minha sábia tia. Nos resta acreditar.
Enquanto ao seu problema, infelizmente Freud pegou o trem pra Freiberg nessa manhã. Mas não se preocupe; ele entrarà em contato com você.
Seja paciente Sam.
E jà que enlouquecer por amor é possivel, por enquanto fique longe dele.
Cordiali Saluti
S. Walter.
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Aquela carta com cara de que foi escrita rapidamente, me deixou desanimado. Eu estava sentado no sofá e o relógio mostrava 3 da tarde.
E ali fiquei.
E ali adormeci.
E ali fiquei.
E ali adormeci.
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Eu me encontrava perto de uma grande janela iluminada; estava completamente aberta e aquela brisa de fim de tarde me enchia os olhos de vida. A casa era pequena. Na sala havia uma simplicidade tão intima que eu chegava à sentir Pascoli escrevendo poesias italianas sob a minha pele. Eu suspirava tranquilidade e ao mesmo tempo me sentia um homem forte e disposto, assim como os super-homens de Nietzsche ou como aqueles mais sociais de D'annunzio. Mas... de repente meu coração começou a gritar pulsações e meus olhos tremiam: lá vem ela. Com seus longos cabelos de perfume tropical e aquela fragância tão delicada que ela costumava passar no pescoço e nos braços. Ela estava vindo na minha direção e eu rezava todas as orações que eu conhecia para que ela me olhasse e se sentasse perto de mim como pra dizer: "bem, estou aqui. E ninguém precisa mais ter medo ou fazer promessas. Apenas estamos aqui." Mas enquanto eu disfarçadamente suava ao rezar, ela desviava sua direcão corpórea e se sentava em um outro lugar qualquer de costas pra mim, como se eu fosse um demais objeto daquela sala, um objeto ridiculo apoiado perto de qualquer vaso privo de decorações que não chama nem um pouco de atenção.
Eu era somente um objeto feio daquela casa com ilustres medievais. Um de muitos. Um de todos. De uma hora pra outra ela vem pra mim, do meu lado. Se senta na ponta do sofá, rindo, mechendo nos cabelos e espantando tristeza... mas ela não quer perceber a minha presença, não quer falar comigo... a indiferença toma conta dela.
Eu calmamente passo a mãos nas suas costas e... nada. Cruzo as pernas pra fazer qualquer movimento mas ela continua imovel dentro dos seus sentimentos. Faço um som desconhecido com a boca e ela finge não ouvir. Enfim... tudo em vão, tudo. Dentro de mim crio um dialogo desesperador: "mas Deus, essa menina diz me amar, ela diz que eu a faço bem. Ela diz também que queria estar abraçada comigo o tempo todo. Me diz porque ela me trata assim? Porque toda essa ignorância? Se eu fiz realmente algo de ruim pra essa moça, eu prefiro estar sozinho contemplando estrelas e mares. Triste, solitário, em clima malinconico. Mas pelo seu amor, não me faça estar aqui vendo tamanho desprezo. Sei que não mereço isso, então me arranque desse estado perturbador onde eu procuro terreno e não acho."
Deus não me ouvia.
Acordei.
E ela estava lá, mais uma vez entre os casos do meu sonho e como sempre me ignorando.
O fato é que, passei o resto do dia pensando no sonho e percebendo como nossas mentes são fenomenais. Elas conseguem transportar pro sonho o que vestimos, os detalhes dos nossos rostos, os olhares de pessoas, aquela blusa rasgada ou aquele chapéu infantil. Mas o que mais me deixa impressionado é que nos comportamos no sonho como nos comportaríamos na realidade, entendem? No sonho somos exatamente o que somos aqui, nesse mundo real. Ou seja; eu fiquei sem reação vendo a pessoa amada me ignorando. Eu ficava construindo dilagos na mente, ou melhor, o dialogo que eu teria feito se isso tivesse acontecido na minha vida pratica. Eu sou uma pessoa priva de atitudes no campo sentimental e foi isso que eu demonstrei ser no sonho; um besta, um imbecil que fica ali esperando que a bênção cáia sobre mim e me dê a oportunidade de mudar o andamento da historia.
Pra esfriar meus pensamentos e tirar esse môfo da minha mente, decidi dar uma volta. Quem sabe um Jack Daniel's não me ajude essa noite. Quem sabe um Jack Daniel's não se apaixone por mim. E eu diria: quem dera.
Vento! Vento! Ao sair de casa fui carregado por uma onda de vento fria que me desequilibrava. Eu já estava acostumado à caminhar com passos incertos. Nada era novidade, tudo se repetia. Entrei no primeiro lugar que encontrei e fui invadido por um calor familiar, aquele que a gente precisa quando tudo parece perdido. Era um bar, um simples bar. Mas como é possivel que eu nunca tinha entrado ali antes? Como é possivel que eu nunca tinha percebido a presença desse lugar a poucos quarteirões da minha casa? Provavelmente quando eu saio de casa, eu esqueço de pegar a cabeça e quando eu lembro de pegá-la eu esqueço os olhos.
O bar chegava à ser mais simples e doce que o meu sentimento por aquela moça. E logo me senti bem. Eu a sentia em todos os lados, nas minhas mãos, no meu pescoço, nas minhas pernas. Ela me fazia bem, mal, tudo, nada. Me fazia sentir lindo, certas vezes feio, pobre, rico, um herói, um coitado, um conhecido, um amante. Um infeliz e logo depois o homem mais feliz desse mundo. É como um sentimento dadaista, ou melhor, é como a palavra "dada": a acharam em algum lugar mas não deram um significado preciso pra ela. É a loucura contra a loucura. É o tudo contra o nada ou vice-versa. E é bem assim que somos eu e a minha moça, bem assim, incompreensívels.
O lugar era pequeno mesmo. Parecia até que eu conhecia as poucos pessoas que estavam ali. Aliàs, parecia estar em casa: aquele meu tio, aquele là meu sobrinho, aquela minha mae, a outra minha prima. Logo me indentifiquei com os cantos e ja fui escolhendo o meu lugar.
Me sentei do lado de uma janelinha e meu Deus. Fui inundado por um sensação de paz, de profundeza, de poesia, de tempos antigos. Jurei querer ficar ali pra sempre, mesmo sem ela. Eu era somente um homem dono de olhos de ninguém. Eles viajavam por ai, sofrendo e procurando dentro de si uma palavra pra alegrar seu dia.
Mas meus olhos naquele momento estavam bem. Foi aì que fixei fora da janela.
Eu estava ouvindo uma voz, bem la no fundo. Uma voz de uma mulher, mas eu a desconhecia. Foi quando me tocaram no ombro e eu pulei da cadeira:
-"Ei, nao queria assustar, mas é que eu estava continuamente te chamando e você parecia ter saido do seu corpo por alguns minutos..."
-"Desculpa, o trabalho me causa um grande transtorno interno!"
-"Imagino... "
Ficamos naquela situação por alguns segundos, um olhando pro chão e o outro pro teto.
-"O que o Senhor deseja beber...?"
-"Pareço assim tão velho, moça?"
-"Imagino que o Senhor seja muito jovem, mas tà com uma aparência murcha."
Fiz cara de quem queria ouvir mais e ela continuou:
-"Quantos anos o Senhor tem?"
-"Vinte e oito. Ou melhor, falta pouco."
Ela calou.
-"Pode falar o que quer sair, eu não costumo me ofender. Eu não costumo fazer nada..."
-"Meu rapaz, parece que tens no minimo trinta e oito e poderia dar até quarenta!"
Caramba! Eu estava realmente podre, por fora e por dentro. Fiquei com vergonha de continuar a conversa e então pedi um Jack Daniel's.
Ela percebeu minha mudança repentina de expressão e humor e sem mais nada pra dizer, anotou minha bebida e se encaminhou até as garrafas.
Ainda meio sem jeito fiquei olhando pra aquele tudo pouco e para a garçonete que parecia despreocupada, talvez até demais. Logo me emocionei ao ver um quadro na parede: o fixei desligando-me do resto.
Quando eu tinha 24 anos, eu frequentava a Accademia di Belle Arti em Milão ( universidade ) e eu ja estava no ultimo ano feliz e disposto por ter chegado até ali depois de muitos anos de estudo e empenho. Eu adorava tudo naquela ambiente: as vozes dos professores, as mãos que cautelamente retocavam os quadros de célebres artistas, a concentração durante as aulas praticas, as discussões nas aulas teoricas sobre o movimento artistico de Pollock; muitos diziam que ele era surrealista, outros afirmavam no expressionismo. Outros meio sem jeito gritava: "vocês não estão vendo que isso aqui é puro dadaismo?". Enfim, só tivemos certeza da colocação da sua pintura quando ele, em uma das suas entrevistas disse:"People! Párem de ficar analisando minha pintura para poder categorizá-la. Prestem atenção: eu não sei o que eu pinto, eu pinto o que quer ser pintado, ser jogado numa tela, eu sou natureza e eu simplesmente pinto."
Foi a partir dessa frase que nasceu o Expressionismo Abstrato.
Quando eu completei os meus estudos recebi várias propostas de trabalho, mas eu queria mesmo era mudar completamente a minha vida, ver outras caras e outras artes; artes mais simples, mais tropicais, mais puras. Foi daí então que dois dois italianos que em menos de 3 meses estavam decididos em se transferir pro Brasil, definitivamente. Eu não ia mesmo perder essa oportunidade.
Uma voz conhecida me impediu de continuar à pensar junto com o quadro. Era a garçonete com o jack daniel's na bandeija.
"Está aqui rapaz, sua bebida!"
"Obrigada, senhorita!"
E tudo entre a gente tinha retornado como antes, sem constrangimentos e vergonhas.
Onde eu tinha parado mesmo? Ah, no Brasil! Terra de todas as culturas completamente intensas.
A minha intenção era de passar maximo dois meses, fazer uma vida de turista com ar de "Senhor Inglês e todos aos meus pés", e assim foi. Os brasileiros adoram turistas e a forma de convivência deles me impressionava! Logo na primeira semana conheci um grupo de amigos que passavam a noite inteira no passeio das ruas tocando violão e contemplando as vozes e os sons de todas as coisas. Essa forma simples de viver a vida não existe na Europa; as pessoas costumam procurar a felicidade nos cantos mais extremos e esquecem ( ou não sabem ) que ela está bem ali, num rápido movimento, sem misterios, sem correções, sem ir muito além do que você está vendo ou ouvindo. Essa é a vida, o belo da vida: a simplicidade.
No Brasil me dei de cara com tudo aquilo que eu nunca tinha sentido, uma mistura de coisas que me fazia caminhar sem tocar o pé no chão.
Eu ja estava me adaptando naquela terra mais do que o devido e as vezes com muita curiosidade eu olhava umas placas de vendas de casa e anotava o numero pra perguntar sobre preço e vantagens, mas nunca chegava à ligar.
Em um desses dias, enquanto eu observava um apartamento em venda, um rapaz alto e moreno se aproximou me fazendo uma proposta para dividir sua moradia; ele não estava dando conta sozinho das dispesas e precisava dividir o aluguel com alguém pra poder pagar com mais facilidade a faculdade. E então, fui. Até porque ele me pareceu uma pessoa de confiança. De muita confiança!
O Carlos era um bom rapaz; estudioso, com teorias pessoais sobre todos e tudo, musico, poeta e solitario. Tamanha solidão o fazia rir desesperamente. As vezes eu o ouvia do meu quarto e era aquela risada que saía de uma coisa sem graça, que só ele poderia achar graça daquilo. Mas ele se divertia, sozinho! E quando estava comigo se divertia o triplo.
O carlos era um rapaz bonito, de presença. As mulheres me pediam o numero dele, me faziam mil perguntas sobre ele e eu esperto saía ganhando: vivia com todas elas e o Carlos simplesmente me dizia: "Good luck!"
Comecei á me importar mais com a minha aparência; usava as roupas do Carlos, comprava as minhas, cortava o cabelo quase toda semana e estava me tornando um brasileiro digno de todo o espirito latino,
mas faltava aprender perfeitamente a pronuncia portuguesa e pronto.
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