Fuga...

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"Porque foges tanto, homem? Não deverias talvez enfrentar a vida e suas barreiras? Os seus erros e seus pecados? Não...?"

"Eu não fujo, menina.
Eu apenas transformo minha vida num quadro, lindo ou feio que for, e de longe o observo.
Eu vou pra longe, tens razão. Mas é por uma boa causa.
Sabe menina, deixamos de enxergar muitas coisas quando estamos muito perto.
A claridade vem quando você foge de si mesmo por um instante. Nem que seja por um dia, por uma noite."

"Então o Senhor foge...?"

"Já que insistes tanto em usar essa palavra, então vamoa usá-la.
Eu fujo do que me cega, do que me cala, de quem machuca meu amor... e ás vezes fujo de mim;
Eu sou muito cabeça dura e tenho que necessariamente fugir pra enteder as coisas que me enganam. Coisa que eu jamais conseguiria enxergar se eu ficasse comigo, usando minhas certezas medíocres.

Retire-se da ignorância, do abandono, do descuido.
Um dia você chega no desapego. E muitos estarão arrependidos.


Retirar-se,
Eis a palavra menina."


Foto: quadro de Carlos Acciaioli de Gouveia

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